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Contos Amazônicos

Por 13 de janeiro de 2026No Comments

Publicado em 1893, Contos Amazônicos reúne nove narrativas que se tornaram um dos retratos mais marcantes da Amazônia na literatura brasileira, sendo frequentemente apontado como a obra mais significativa do autor paraense Inglês de Sousa, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Entre o rigor do Naturalismo – com descrições minuciosas, olhar quase “documental” e atenção ao ambiente e aos costumes – e o fantástico amazônico, trazendo a força do imaginário popular, o livro encena uma Amazônia em que o cotidiano ribeirinho convive com o insólito: canto de mau agouro, feitiçarias, seduções e encantamentos atravessam histórias de amor, medo e violência.

Essas narrativas não são apenas lendas: nelas aparecem, com dureza, as tensões do Brasil oitocentista, como a denúncia do recrutamento forçado para a Guerra do Paraguai e os ecos de conflitos políticos que marcaram a região. Em tom de “causos” contados e recontados, a obra preserva a oralidade e dá voz a um mundo moldado por rios, floresta e disputa social. Um clássico que, além de literatura, é memória viva de um país profundo.

Confira os contos presentes no livro:

O Voluntário: Rosa, uma tapuia que vive às margens do rio com o filho Pedro, vê a tranquilidade do cotidiano ser destruída quando o recrutamento para a Guerra do Paraguai chega à região. Pedro é capturado à força, e a tentativa de salvá-lo pela via legal esbarra na brutalidade e nas manobras do poder local. O conto expõe a violência do “voluntariado” imposto e o desespero de uma mãe diante do Estado.

A feiticeira: O tenente Antônio de Sousa, orgulhoso de seu “espírito forte”, ridiculariza as crenças do povo e decide afrontar a temida Maria Mucoim, conhecida como feiticeira. Ao se aproximar dela e provocá-la, ele entra numa sequência de acontecimentos inquietantes, em que medo e superstição passam a disputar a sua razão. É um embate entre arrogância e mistério, onde a mata parece responder.

Amor de Maria: Mariquinha ama Lourenço com intensidade, mas o ciúme e a insegurança a corroem quando percebe o comportamento volúvel do rapaz. Buscando prender o amor, ela recorre a um “remédio” popular feito de tajá, sem saber (ou sem aceitar) o perigo. A tentativa de garantir um destino feliz termina em tragédia e transforma a história em lenda.

Acauã: Após uma noite estranha, o capitão Jerônimo encontra uma criança à deriva numa canoa e a cria como filha, ao lado de Aninha, sua menina legítima. Com o tempo, a presença da adotada, Vitória, ganha contornos perturbadores, enquanto Aninha definha, como se estivesse sob um domínio invisível. O terror se revela por completo quando o canto agourento do acauã sela o destino das personagens.

O donativo do Capitão Silvestre: Em clima de patriotismo e alarde político, a comunidade se mobiliza para arrecadar donativos em nome da “defesa do Império”. O capitão Silvestre é pressionado a contribuir e, quando enfim faz sua oferta, todos acreditam ter conquistado um grande triunfo. A reviravolta mostra que o “donativo” pode esconder intenções bem mais perigosas do que parecem.

O gado do Valha-me-Deus: Domingos Espalha insiste que há gado perdido e misterioso na região do Valha-me-Deus, onde poucos se atrevem a entrar. Ele e Chico Pitanga tentam capturar uma vaca mansa demais para ser normal, mas o episódio toma um rumo sinistro. A busca seguinte, guiada por rastros e sons noturnos, termina diante de uma serra proibida – e do medo de atravessar um limite sem volta.

O baile do Judeu: Um homem conhecido como “o judeu” anuncia um baile, e a vila inteira comparece, curiosa e desconfiada. No auge da festa surge um dançarino sedutor, que atrai olhares e arrasta corações, mas carrega um segredo. Quando o disfarce cai, a noite ganha um tom de assombro e revela a presença do boto encantado entre os humanos.

A quadrilha de Jacó Patacho: A região vive sob pânico por causa da quadrilha de Jacó Patacho, marcada por assaltos e violência. Numa noite decisiva, o bando ataca uma casa e o confronto explode em brutalidade, deixando um rastro de morte e devastação. O conto mostra a fragilidade da vida na beira do rio diante da lei do mais forte.

O rebelde: O narrador recorda a amizade com Paulo da Rocha, um velho pernambucano carregando a marca de ter participado da Revolução de 1817 e, por isso, ser odiado e perseguido. Em meio à violência da cabanagem, Paulo faz escolhas difíceis e humanas, recusando a crueldade e tentando proteger um inocente. Anos depois, a história culmina no reencontro com o “rebelde” já vencido e num desfecho amargo, de perdão tardio e morte.

 

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